SAÚDE MENTAL

É a vez da Languidez


É a vez da Languidez. (Imagem de Free-Photos por Pixabay)

Não é depressão nem ansiedade. O novo estado patológico em saúde mental tem nome, chama-se "languidez ou prostração", do inglês languishing.

Trata-se de um sentimento de paralisação, estagnação e vazio. É a vivência de uma espécie de travessia desnorteada pelos dias, sem muito sentido, sem enxergar um horizonte, como se estivéssemos andando sem rumo e a alma passasse por certo amortecimento interno. 

É diferente de depressão, pois não se trata de uma paralisação que impossibilita ou suga a energia em condição de debilidade. Na verdade, existe energia libidinal para prosseguir, mas não há razão ou motivação para acessá-la.

Não é ansiedade, pois não há sentimentos de exaustão mental e física, características do burnout e tampouco se parece com as crises e ataques de pânico que produzem sintomas físicos e psíquicos específicos.

A languidez se estabelece no lugar intermediário entre essas duas conhecidas patologias (depressão e ansiedade). Ela tira o foco e concentração, mas produz ritmo, cadência e continuidade na vida, sem vibração e sentido no viver. Se olharmos para o começo da pandemia e compararmos com o que acontece hoje, fica evidente a diferença. Havia entusiasmo, enfrentamento e desafio em permanecer com as atividades diárias, sustentando atitudes, hábitos e comportamentos de manutenção de uma rotina saudável e regular. Porém, ao longo desse processo, foi surgindo o aumento generalizado de adoecimento em saúde mental. Agora, estudiosos como Adam Grant (Wharton School) apontam a languidez, como um novo cenário para os dias atuais.

No início havia um panorama de que a pandemia duraria pouco tempo, sendo até encarada por muitos como uma boa oportunidade para ficar em casa, levando uma rotina mais calma com tempo para organizar a vida. Entretanto, com o passar do tempo uma nova realidade se apresentou e, aquele fim que parecia ser breve foi se estendendo até o ponto de já não haver esperança de um fim. A euforia deu lugar ao desalento, o contagio e a gravidade antes alheia, foi chegando mais perto e o sentimento de viver o cotidiano foi apenas seguindo, sem um propósito específico, sem um porquê, sem aquela determinação do maratonista que pensa em romper a faixa de chegada, pois o cruzamento do fim da linha foi levado para frente.

É necessário perceber, notar e nomear o sentimento que cada um está passando hoje para não adoecer futuramente com depressão ou ansiedade. Um dos antídotos no combate de saúde mental é a autopercepção.  

Caso perceba que seu dia segue cumprindo tarefas, fazendo seu “dever”, sem entusiasmo, sem propósito, desejo ou motivo, algo pode estar errado. Toda rotina pode ser estressante em alguns momentos e nem sempre queremos fazer o que fazemos, mas quando a rotina segue tal como um ininterrupto Charles Chaplin no filme Tempos Modernos, não se pode continuar!

Sobre o autor: Kleber Maia Marinho é psicólogo analítico, formado em Psicologia pelo Mackenzie e mestrado e Ciências da Religião pela PUCSP. Possui mais de 20 anos de experiência com pacientes dependentes químicos e patologias severas.
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