SAÚDE MENTAL

Cenas de um futuro estresse pós-traumático pairando no ar

Como se já não bastassem as dificuldades cotidianamente enfrentadas no combate à pandemia que tanto contribuem para o escalonamento nos índices de sofrimento mental da população, a situação agrava-se cada vez mais em decorrência da inépcia política na administração da saúde pública, não somente pela versada negação aos acordos por parte do governo federal que nos relegaram ao próprio destino sem vacinas, mas também pela falta de planejamento na aquisição de insumos básicos desde seringas até o mais recente problema do kit intubação (anestésicos, sedativos e bloqueadores musculares), um conjunto de itens fundamental ao procedimento de intubação realizado em pacientes em comprometimento respiratório por condição pulmonar grave.

Não havendo esses medicamentos, o processo de intubação passa a ser um ritual de tortura, sem mencionar o risco de o enfermo institivamente tentar expelir o tubo (extubação), levando a possível parada cardíaca. Por esse motivo, começam a surgir relatos de pacientes amarrados à maca, o que evidenciaria a prática de pacientes sendo intubados sem o auxílio do kit.

Hospitais públicos já anunciam não possuir o kit e cerca de 30% dos hospitais privados comunicam esgotamento dos recursos nesta próxima semana, segundo a Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados).

Além da óbvia dor, angústia e risco de morrer confrontados nessa prática pré-medieval, certamente também haverá aumento significativo de casos de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), um distúrbio em saúde mental associado à sintomas de ansiedade deflagrado pela vivência de um trauma, por efeito da passagem pela experiência ou testemunho de uma situação em circunstâncias extremadas, comum aos eventos permeados por qualquer tipo de violência física e/ou psíquica frequente aos casos de guerra, tortura, estupro, assalto, sequestro, acidente de carro, avião e outros contextos traumáticos; caso das aventadas ocorrências de doentes submetidos à intubação em estado consciente, amarrados à maca, sem o devido uso de anestésicos, sedativos e bloqueadores. Aos sobreviventes e demais presentes no processo desse cenário análogo à tortura, muitos serão futuramente diagnosticados com TEPT, manifestando variados sintomas, tais como: pesadelos, flashbacks, crises de ansiedades, calafrios, sudoreses, paralisações de suas ações, frequência cardíaca temporariamente alterada, fluxo de pensamento contínuo e incontrolável sobre a memória do evento, entre outras alterações físicas e psíquicas.

A despeito de o paciente em questão despontar como a provável vítima ao desencadeamento da doença, todos profissionais de saúde envolvidos, familiares, amigos e demais testemunhas próximas ao fato poderão desenvolver TEPT, crises de ansiedades e outras patologias correlatas. O descaso do trato com a saúde pública traz prejuízos humanos, socioeconômicos e abala a manutenção da frágil ética, todavia, existente.

Vivemos momentos difíceis de combate contra um inimigo invisível e, paradoxalmente ao mesmo tempo, temos de ainda lutar pela consciência daqueles que negam os fatos notoriamente visíveis e constatados pela ciência. A esperança é que o princípio de homeostase prevaleça, trazendo equilíbrio futuro ao panorama sombrio que vivemos hoje que acredita em falsos messias que trazem a morte como caminho.

Sobre o autor: Kleber Maia Marinho é psicólogo analítico, formado em Psicologia pelo Mackenzie e mestrado e Ciências da Religião pela PUCSP. Possui mais de 20 anos de experiência com pacientes dependentes químicos e patologias severas.
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