SAÚDE MENTAL

Pão e Paz




Foto: Getty Images

Abrindo o mês de março, no dia 08, temos o emblemático Dia Internacional Da Mulher resgatando a memória de uma luta histórica das mulheres que reivindica não somente condições equiparadas às dos homens nas relações trabalhistas, na inequidade salarial e demais desigualdades de gênero, mas outras tantas que estão ainda mais distantes da proposta inaugural do movimento de tecelãs e costureiras de Petrogrado que iniciaram greve por “pão e paz” na Rússia, em 23 de fevereiro de 1917.

O simbolismo do “pão para nossos filhos” clamado naquela manifestação evoca um conceito sagrado de alimento que representa um sentido de justiça que talvez só consiga mesmo ser compreendido e atingido em sua plenitude pelo lugar de fala de uma mulher que vive, habita e constela em seu corpo o arquétipo da Grande Mãe ao longo do processo de todas múltiplas formas tradicionais, diversas e fluidas, existentes na vivência do feminino, sendo mulher-filha, mulher-esposa, mulher-mãe, mulher-sogra, mulher-avó, mulher-trans, etc. 

É a parte da mãe nutridora, fonte produtora de alimento primário da humanidade, que doa seu corpo na gestação e ao ser sugada pelo filho(a) que representa a força do clamor do pão, em termos profundos de compartilhamento de igualdade, do olhar e cuidado pelo outro, pela coletividade, pela sobrevivência equânime e, portanto, algo que parece estar longe de ser atingido pelo homem.

Já o sentido de paz naquele momento era o pedido do “retorno dos maridos das trincheiras”. Havia novamente a implicação pela vida do outro naquele protesto, pela família; ainda que houvesse naturalmente um benefício para si.
Posto isso, não seria passada a hora de nós, homens, definitivamente nos colocar em prol do outro, no caso, da outra, dessa luta das mulheres? Não aceitando mais nossa condição desigual nessa relação, sob todos os aspectos? Não aceitando mais o silêncio conivente diante da paz inexistente das mulheres que são abusadas, machucadas, assassinadas e exauridas pelas duplas e triplas jornadas cotidianas?

Quem sabe assim podemos terminar o mês de março “fechando o verão... com a promessa de vida no (nosso) coração”.


Sobre o autor: Kleber Maia Marinho é psicólogo analítico, formado em Psicologia pelo Mackenzie e mestrado e Ciências da Religião pela PUCSP. Possui mais de 20 anos de experiência com pacientes dependentes químicos e patologias severas. 




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