SAÚDE MENTAL

O Reality Show Imitando A Vida

A relação entre os acontecimentos da presença brasileira na assembleia da ONU em Nova York com os recentes episódios do reality show da emissora Record pode ter uma ligação mais estreita do que supomos.

De um lado, temos um presidente notoriamente conhecido por afirmações públicas racistas, homofóbicas, LGTBfóbicas, misóginas, sexistas, além de outros pronunciamentos permeados por apologia ao crime, à tortura, ao estupro e ameaças antidemocráticas e inconstitucionais. Do outro lado, um conhecido cantor e compositor de funk com acusação por estupro de vulnerável, lesão corporal, violência doméstica, injúria e ameaça.

O primeiro, em âmbito macrossocial, carrega quatro denúncias feitas ao (TPI) Tribunal Penal Internacional e uma avalanche de outras tantas na ONU. Mesmo assim, tem presença permitida na assembleia da ONU, nos EUA. Portanto, sem vacina e internacionalmente conhecido pelo negacionismo e negligência explícita na gestão da saúde pública, pôde entrar naquele país e discursar, inclusive sem máscara. Desse modo, o mundo foi testemunha de uma fala repleta de inconsistências e falácias, deixando todos em condição de telespectador do absurdo.

Vale lembrar que cidadãos comuns do Brasil precisam passar duas semanas em um país neutro antes de entrar no território estadunidense, mas essa lei não se aplica a chefes de Estado. A ONU, por sua vez, sendo considerada uma espécie de território internacional, não está particularmente sujeita às regras de nenhum país.

O segundo, em âmbito microssocial, sem o alcance do desprestígio internacional, carrega pelo menos dois indícios de relacionamentos afetivos anteriores que o acusam de agressão, estupro de vulnerável, ameaça com faca, agressão física e violência doméstica.

Resguardadas as proporções da extensão de prejuízo do dano, ambos representam o fracasso de um modelo sociopolítico ultraneoliberal que favorece, consente, avaliza ou convida atores de reputação, para dizer o mínimo, eticamente duvidável, para serem protagonistas da cultura e naturalização da violência e do ódio, cultura do estupro, do descaso com a vida e, em suma tudo aquilo que equivocadamente possa criar o ilusório sentimento de poder, sobretudo atrelado à condição de posse, que em última instância equivale ao fetiche de mercadoria.

A democracia e a jurisprudência garantem que um chefe de Estado participe de uma assembleia da ONU, ainda que suas ações e tudo que represente seja contra os próprios pressupostos dessas garantias e dos supostos princípios da anfitriã. De modo análogo, também é o que possibilita um cidadão indiciado por violência servir perversamente como objeto de monetização e espetáculo, aparentemente calculado, tendo em vista os fortes indícios de uma tragédia anunciada.

É necessário refletir sobre nossa responsabilidade no papel da manutenção desses modelos presentes em nossa sociedade, que tanto nos adoece física e psiquicamente. Não podemos permitir que o ódio, a violência, a intolerância ao diferente e a fantasia ameaçadora da perda de poder nos aprisione ao limite do destino de nossa própria miséria individual.

Enquanto nossas ações, comportamentos, escolhas e decisões pactuarem com tais iniquidades seremos espectadores da degradação gradual da vida em sua totalidade não somente humana, mas planetária. Não podemos permitir conivência ao cultivo do acinte de valores em prol do amor, solidariedade, diversidade, respeito e ética. Não podemos permitir que a palavra “família” seja sequestrada por aqueles cujas ações explicitamente demonstram pouco se importar com qualquer outro, além de si.

O melhor caminho talvez não seja apenas denunciar nas redes sociais e fazer pressão para cancelar alguém ou expulsar um indivíduo de um programa, nem justificar um voto pela infeliz frase: “se não for bom, a gente tira! ”. Embora esse pareça ser um caminho viável e, até hipoteticamente possa apresentar algum resultado, mostra certa atitude perigosa e infantil de obter para si a sensação do poder na direção e rumo das coisas a posteriori. A questão aqui deveria ser invertida, isto é, deveríamos declinar, recusar, não permitir, não pactuar, não ser conivente ou desejar passar pela experiência daquilo que já se apresenta a priori fundamentalmente contra princípios e valores humanos que valorizam e prezam pela vida.

___
Sobre o autor: Kleber Maia Marinho é psicólogo analítico, formado em Psicologia pelo Mackenzie e mestrado e Ciências da Religião pela PUCSP. Possui mais de 20 anos de experiência com pacientes dependentes químicos e patologias severas.
___
“As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião deste site”.

___
Acompanhe o Portal 7 Cidades.




COMENTÁRIOS







VEJA TAMBÉM



SAÚDE MENTAL  |   04/09/2021 11h59





SAÚDE MENTAL  |   17/08/2021 19h27


SAÚDE MENTAL  |   02/08/2021 20h33