SAÚDE MENTAL

Ninguém conversa na escola

A frase pertence a uma menina de 13 anos que havia retornado entusiasmada para as aulas presenciais, após 16 meses sem contato físico com a escola. Era um típico almoço familiar, com pais ansiosos fazendo aquelas perguntas clichês para saber as novidades do regresso, fundamentalmente sobre a qualidade do contato com os amigos/as e professores/as. Afinal, não via ninguém há tempos.

“Ninguém conversa na escola... ficam todos no celular”. 

A pandemia parece ter definitivamente sacramentado tal fenômeno já posto no mundo. A verdade é que a janela virtual já estava aberta, mas a diferença é que agora ficou explicitamente escancarada, pois sob a justificativa do isolamento da pandemia parece ter tornado uma irrefutável hipótese plausível.

Ao mesmo tempo temos notícias de pesquisas apontando aumento dos problemas de saúde mental na população jovem. Sim, o uso da tecnologia nos ajudou enfrentar a pandemia, trouxe a possibilidade do acalento do contato remoto com nossas relações socioafetivas e ancorou trabalho e escola à distância. Mas qual é o limite? O quanto isso nos afeta e como ficam nossas crianças e jovens? Quem consegue frear o impulso dos alarmes nas mídias sociais?

Se adultos não conseguem, imagine um jovem ou uma criança que ainda não completou o desenvolvimento do chamado córtex pré-frontal, a parte que fica atrás da testa, responsável pelas nossas funções executivas, pelo controle de nossos impulsos, pensamento crítico, sentimento e expressão das emoções, condição de antecipar e planejar as coisas, etc.

Estamos diante de uma sociedade que aprendeu a viver, mais do que nunca, em ambiente virtual, distante, sem contato, tal como um filme distópico. Os jovens estão agora vivendo o medo e receio de ressocializar, inclusive passando pelo efeito da ruptura do acompanhamento das mudanças físicas e psíquicas em ritmo natural, isto é, as mudanças físicas e subjetivas da identidade e personalidade do jovem antes imperceptivelmente transformadas no dia a dia, agora viraram um choque do ‘antes e depois’ igual aquelas fotos publicitárias absurdas que vemos em propaganda de reforma ou dieta, algo que acarreta ainda mais um estranhamento, distanciamento e dificuldade de contato. Não nos aproximamos facilmente daquilo que não mais identifico.

Nós precisamos do outro, do coletivo e da diversidade e, estar em contato com pessoas é bom e fundamental para evolução, pois o outro me transforma e modifica. A consequência nociva mais óbvia da ausência ou falta desse convívio é aparecer depressão e/ou ansiedade, mas ainda existem inúmeras outras patologias que poderiam surgir e uma delas é a fobia social ou TEPT (transtorno do estresse pós-traumático)

Se não houver interferência na relação dos jovens com o uso da tecnologia, celular e mídia social, teremos problemas presentes e futuros em saúde mental. Viva a tecnologia! Mas como tudo na vida, temos de dosar. A diferença entre o remédio e o veneno está na dosagem, posto que esses meios são excelentes formas de comunicação, alternativa de contato, informação e tudo que já sabemos, mas também pode ser uma bela isca para causar dependência, depressão, ansiedade e, por esse caminho adoecer nossa sociedade.  Assim, quem sabe poderemos voltar a conversar na escola, em casa, na rua, nas praças e no mundo! 

Para quem quiser saber mais:
www1.folha.uol.co...&origin=uol

edition.cnn.com/2...ness/index.html

www.cnnbrasil.com...revela-pesquisa

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Sobre o autor: Kleber Maia Marinho é psicólogo analítico, formado em Psicologia pelo Mackenzie e mestrado e Ciências da Religião pela PUCSP. Possui mais de 20 anos de experiência com pacientes dependentes químicos e patologias severas.
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