SAÚDE MENTAL

Saúde Mental em Alta

Após a ginasta estadunidense e promessa de ouro olímpico em Tóquio, Simone Biles, dar o alerta, a saúde mental ganhou destaque na mídia mundial. Finalmente, o rei está nu!

A frase original do grego Tales de Mileto, posteriormente eternizada na paráfrase satírica, em latim, de Juvenal à sociedade romana da época: ‘mens sana in corpore sano’ (mente sadia em um corpo sadio) nunca fez tanto sentido como agora quando Biles, uma mulher negra, criada pelos avós, em virtude dos problemas enfrentados pela mãe com drogas e vítima de abuso sexual do ex-treinador, declara ao mundo que precisa parar em prol de sua saúde mental.

Se não fosse pela linda carreira impecável de ginasta, Biles seria uma voz anônima, em silêncio, igual a tantas outras Biles que vivem por aí, sem amparo, cuidado ou condição de ser ouvida.

Precisamos de Bile(s), Phelp(s), Osaka(s), Dumoulin(s), Cambage(s), Richardson(s), Hypólito(s) e tantos outros. Precisamos de pessoas que digam ao mundo que saúde mental importa e que de nada adianta uma carreira supostamente perfeita, um corpo estético aparentemente lindo, uma vida que externamente surpreende positivamente o olhar alheio, mas internamente está fragmentada, em frangalhos e precisando de equilíbrio.

Quem olha de fora, vê em Biles, uma mulher linda, esteticamente perfeita, com movimentos milimetricamente precisos, senhora de si, uma pessoa impossibilitada do erro, do escorregão ou, em última instância, da queda.

Biles representa o que gostaríamos de ser e nunca seremos, uma projeção do desejo impossível, da perfeição, da representação perfeita do ser humano. Mas... e quando falha? O que fazer?

“Eu não confio mais tanto em mim mesma. Talvez seja o fato de estar ficando mais velha. Não somos apenas atletas. Somos pessoas, afinal de contas, e às vezes é preciso dar um passo atrás".

A atleta com 24 anos sentiu-se velha, teve falta de confiança e notou que antes de uma atleta é uma pessoa, uma simples pessoa e precisava dar um passo atrás. Afinal, ela carregava o peso da expectativa do mundo em suas costas e tinha de ser mais infalível do que a mulher maravilha.

Mas logo apareceu a Rebeca, outra negra, periférica, filha de empregada doméstica, que chegava a andar 2 horas para poder treinar por falta de dinheiro e, mais para frente levada de bicicleta pelo irmão que fazia apenas uma refeição por dia para dar conta da missão.

Rebeca nos faz esquecer tudo com o polêmico ‘Baile da Favela’, que acende a discussão do sexo consentido e do empoderamento feminino. Ela nos anestesia e traz aquela emoção romântica do pobre que ascendeu, chegou lá e tudo quando queremos é possível, tal como o privilegiado Fratus nos disse.

O fato é que o caso de Biles nos traz a verdade explícita que pretendemos não ver, pois queremos sonhar com um mundo fantasioso, onde Bile(s) vencem pela superação, Rebeca(s) mostram que é possível superar a pobreza e falta de políticas públicas sérias e comprometidas com a condição digna cidadã, sendo que tudo isso nos supre a miséria cotidiana do nosso lugar passivo no sofá.

Por isso, caro leitor(a), cuide de sua saúde mental porque vivemos em um país desigual, nada romântico, cujo governo nega a ciência, nega o bem-estar social e quer apenas a medalha que não lhe pertence.

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Sobre o autor: Kleber Maia Marinho é psicólogo analítico, formado em Psicologia pelo Mackenzie e mestrado e Ciências da Religião pela PUCSP. Possui mais de 20 anos de experiência com pacientes dependentes químicos e patologias severas.
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